Sexta-feira

Esta é a casa. A imaginação branca das paredes agora é a realidade dos tijolos. O sonho rugoso do chão, os olhos dos pés. Se ontem calculávamos o calor do quarto, hoje nos recolhemos em seu lume. Abre-se a janela e experimentamos a verdade das jaboticabeiras, a certeza antiga da tulha, a exuberância do gramado, a tristeza dos telhados. A claridade dos lugares. No entanto, quando o céu se veste de nuvens e o sol se encolhe, o fogão oferece o fogo, a cadeira sua espera, a mesa seu horizonte. Sentados contemplamos a lavação do terreirão prata e a chegada dos insetos. Nossa pele se transmuta então em aeroporto clandestino destes intrusos e a cada beijo que deles recebemos, nascem tatuagens inflamadas.

É noite.

Resta ainda a morosidade da água quente do chuveiro elétrico e o descanso da cama limpa. A sombra re-pousa sobre o espetáculo. A casa se ajunta, mas o trabalho continua dentro. Dentro do corpo, da casa, do mundo, da mente do Tempo; que mente.